“O deus do sono não dorme!” É preciso estar atento ao ideal nosso de cada dia. É preciso estar atento ao intangível nosso de cada dia. Derrubamos, à navalha do verso, o ódio, a morte e a tirania. Nenhum burburinho virá arrefecer o ímpeto do trabalhador da palavra. Um desses raros ourives, Rafael Gama, tem a mente ampla e a poesia de pé no chão. Tem o que eu chamaria de malandragem lírica. Rafa, nosso poeta-malandro (da nata daquela malandragem cantada por Chico que não existe mais), ginga nos entremeios das palavras, brincando com as expectativas ao revelar uma voz atenta e lúcida. Nosso poeta-malandro, certamente, não deixa de lado a sua bagagem intelectual oriunda de anos como pesquisador e professor na área das ciências humanas, porém não fica longe do povo. Nosso poeta-malandro canta e entoa um brado de muita gente. Ele observa o abebé, a estátua, o arado, o interdito, a liturgia. Nosso poeta-malandro escorrega nos porões da corte e salta sobre o cadafalso direto ao topo da linha tênue da vida. E sabe falar com Deus. Nós, como bons devotos, também sabemos louvar o bom, o justo, o belo, o sagrado. Que sejamos próximos a esse verbo e nos mantenhamos firmes nessa oração. Sem nunca perder de vista a postura contemplativa, “insurgir” é a palavra de ordem; “insubordinar” é o refrão.-
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